Escrita pela própria Esther e por Ariel Borghi, também diretor da montagem, a peça trata da vida e obra de Heléne Weigel - atriz, militante política na Alemanha dos anos 20 do século passado, mulher do dramaturgo Bertold Brecht e uma das fundadoras do Berliner Ensemble.
O espetáculo conta com participação especial em vídeo dos atores Renato Borghi e Henrique Schafer (ambos como Bertold Brecht) e Eucir de Souza (como Emigrado), além do próprio diretor Ariel Borghi, este ao vivo. Esta é a primeira vez que Ariel a mãe Esther atuam juntos. Ambos concordam em dizer que é muito bom trabalharem em parceria, pois pensam a arte da mesma forma.
Para Esther Góes, a Determinadas Pessoas - Weigel tem uma importância significativa, enquanto resgate de uma figura universal do teatro, que propõe, por sua simples postura profissional e de vida, uma reflexão sobre nosso papel no mundo. “Ela promove, com humor e naturalidade, a quebra do autodeslumbramento, da vaidade e do narcisismo”, comenta.
A nova temporada, apesar de evoluções técnicas, traz a mesma montagem, mas com muitas transformações internas, estimuladas pelas apresentações anteriores. “Toda a vivência interpretando Weigel me fez perceber a realidade atual da arte e compreender seu processo. Esta sensação me fez retomar o trabalho e reviver essa mulher, esse ser humano de primeira grandeza, que ousou experimentar tudo que achava importante na vida”. Comenta a atriz.
Esther ainda afirma que algumas citações e sentimentos de Heléne Weigel, nas primeiras décadas do século passado, são reflexões que se encaixam nos tempos atuais. “Vivemos numa época diferente, mas detectamos também características nefastas no universo da arte e da cultura de hoje. Na Alemanha, naquele momento, a arte se propunha ser uma verdadeira trincheira cultural, interrompida pelo nazismo; debatiam-se idéias e conceitos artísticos, sociais e políticos. Hoje, já sabemos que tanto a esquerda quanto a direita falharam, em termos de política cultural, e o debate foi substituído pelo vazio. Brecht e Heléne sonharam com o comunismo/humanismo, acreditando que o homem poderia ser esclarecido pela cultura. Mas a ideologia e a utopia foram substituídas pela simples vaidade ou pelo amor ao dinheiro”. Para Ariel e Esther, o artista, atualmente, tem poucas oportunidades de exercitar o seu papel de observador e crítico da sociedade e da própria conduta artística.
O enredo
Determinadas Pessoas - Weigel narra a trajetória de Heléne, a partir de sua juventude, durante a República de Weimar (1919-1933), época em que atua ao lado de segmentos da esquerda, como o Teatro Proletário de Erwin Piscator e o Partido Comunista Alemão. Nesse ambiente de criação política e estética ela encontra seu parceiro de toda a vida: Bertold Brecht. Com a chegada de Adolf Hitler ao poder, em 1933, o casal se exila em vários países da Europa e nos EUA, onde Brecht acaba realizando trabalhos para Hollywood. Em 1948, eles retornam à Europa e se estabelecem definitivamente na República Democrática Alemã, onde fundam, em 1949, a companhia Berliner Ensemble.
A encenação de Determinadas Pessoas é apresentada sob forma de recortes na vida de Heléne Weigel. Uma cena retrata seu encontro, aos 24 anos, com Brecht, na Itália, para decidirem se ela terá o filho que espera dele. Nessa época, já era uma mulher independente, liberada e comunista. Outra se passa no camarim, após a encenação da peça A Mãe, quando Weigel já está engajada no teatro épico e assume postura contra o nazismo. O exílio, passando pela Dinamarca, aparece junto com a crise conjugal do casal, antes de chegarem aos Estados Unidos, quando estão sem dinheiro, vivendo com muita dificuldade à base de uma pensão. Esther também retrata a faceta debochada da atriz, interpretando Hitler na peça Schweik na Segunda Guerra Mundial, e revive seu retorno à Alemanha, quando foi convidada para fazer Mãe Coragem e Seus Filhos; na sequência aborda a fundação do Berliner Ensemble. A parte final do espetáculo traz Weigel aos 70 anos. Brecht já está morto, e fica claro o esforço que ela fez para levar, incólume, à Alemanha Ocidental a obra do dramaturgo.
Ficha Técnica
Texto e concepção geral: Esther Góes e Ariel Borghi
Direção: Ariel Borghi
Interpretação: Esther Góes
Participação especial: Ariel Borghi
Participação especial em cenas gravadas: Renato Borghi, Henrique Schafer e Eucir de Souza
Figurinos: Beth Filipecki
Música original: Lincoln Antonio
Desenho de luz: Lúcia Chedieck
Cenografia: Ulisses Cohn
Fotografia: Gal Oppido
Duração: 80 minutos.
Classificação etária: 16 anos.